Publicado em Deixe um comentário

Cinema | “O Chalé”: terror para quem está cansado de sustos gratuitos

Atenção: a crítica contém spoilers.

Um dos terrores definitivos da década passada é “Boa Noite Mamãe” (2014). O filme é bem divisível: alguns o acham chatíssimo, outros uma obra-prima (me incluo aqui), e o hype para o novo e segundo filme da dupla austríaca Veronika Franz e Severin Fiala estava bem alto. “O Chalé” finalmente está entre nós – e espalhando comentários pela internet, com espectadores tentando decifrar o instigante longa.

“O Chalé” (The Lodge) começa com uma mãe (Alicia Silverstone) levando seus dois filhos, Aidan (Jaeden Martell, da saga “It: A Coisa”, 2017-19) e Mia (Lia McHugh) até a casa do pai, um jornalista investigativo. O casal está passando por um processo de divórcio, e é claro desde a largada que ninguém além do pai gosta da nova namorada, Grace (Riley Keough). Ao anunciar que o casamento já está marcado, a mãe calmamente volta para sua casa, saca um revólver e se suicida.

A produção foi muito perspicaz em escalar Alicia Silverstone para o papel. Os primeiros minutos gravitam ao redor de sua personagem e, por ser a atriz mais conhecida do elenco, soa como a protagonista da fita. Matá-la antes mesmo da história de fato começar é uma ruptura efetiva no clima, e o acontecimento dita o destino de todos os personagens no ecrã – e, também, segue a artimanha de alguns dos maiores nomes da história do terror, como “Psicose” (1960) e “Hereditário” (2018), que não poupam suas supostas protagonistas no primeiro ato.

O suicídio da mulher é a ruína emocional da já fragilizada família, porém, quem mais sofre é Mia. Não apenas a morte da mãe, o que também a assombra é a certeza de que ela não entrará no Céu – suicídio é um pecado mortal nas escrituras cristãs, e condena a alma direto para o Inferno. É muito emblemática a cena do velório. Os presentes estão com balões pretos com hélio; Mia amarra sua boneca (vestida como a mãe) no balão, porém, ele é o único a não subir aos céus. A boneca, ao contrário dos outros, vai direto ao chão, uma imagética comprovação de que o lugar da mulher no pós vida não é ao lado do Criador.

Seis meses se passam e o pai diz que quer passar o natal com os filhos e Grace em sua afastada cabana. Aidan imediatamente se recusa, dizendo que a namorada é a culpada pela morte da mãe. Invadindo o computador do pai, os filhos descobrem que Grace é a única sobrevivente de um culto fundamentalista, liderado pelo seu finado pai, que cometeu um suicídio em massa. Para Aidan, ela é uma “psicopata”, e o macabro vídeo mostrando os corpos com uma fita na boca escrita “Pecado” reforçam a ideia.

O pai consegue convencer as crianças sobre o feriado na cabana e finalmente Grace entra em cena. A obra faz tudo ao seu alcance para não emoldurar o rosto da mulher na tela, colocando-a por trás de vidros, janelas ou em takes de costas – assim como a mãe de “Boa Noite Mamãe” é apresentada ao público em doses homeopáticas. Isso dita onde reside a força motora de suas tramas e qual personagem deverá ser desvendada. O mistério está ali.

Na cabana, Grace parece totalmente deslocada por esbarrar em um muro de indiferença criado pelos enteados. Para piorar, há diversos ícones e símbolos religiosos espalhados pela casa, o que, de alguma forma, a machucam. Não parece um ambiente saudável para ela, no entanto, mesmo com o pai dizendo que os planos podem ser mudados, ela afirma que pode passar alguns dias com as crianças enquanto ele volta ao trabalho. A coisa vai por água abaixo assim que ele vai embora.

Personagens em uma cabana longínqua vendo tudo dando errado? Clichê, para dizer o mínimo, todavia, “O Chalé” burla expectativas simbióticas da premissa. A dinâmica do filme vira a mesma de “Boa Noite Mamãe”: uma mulher contra duas crianças. Grace tenta se aproximar dos dois; Aidan a ignora por completo e Mia a tortura emocionalmente quando mostra o presente que fez para o pai: um vídeo celebrando a mãe. Ela decide parar com o teatro e manda a real para Aidan, perguntando qual o motivo para aquele tratamento, pedindo para que o garoto se esforce para manter um ambiente menos tenso. Ele faz isso durante a noite, quando faz chocolate quente para ela enquanto todos assistem a filmes.

Só que quando todos acordam, toda a comida e pertences dos três sumiram. A energia também se foi, o que desliga o aquecedor, congelando os canos. Grace acusa os garotos, enquanto os dois acusam Grace, mas ninguém parece ter a menor ideia do que aconteceu – note o filme que está passando na cena anterior, “O Enigma de Outro Mundo” (1982), que exatamente se trata de uma história com personagens trancados em um lugar e acusando uns aos outros sobre o que está acontecendo. Estranhos sonhos se iniciam, com Grace sendo assombrada pela figura do pai enquanto Aidan tem um pesadelo em que todos morriam sufocados quando um aquecedor portátil a gás dá defeito. Algo claramente errado está se passando ali.

“O Chalé”, a partir de então, segue o mesmo caminho traçado por “O Homem Invisível” (2020): construir seu mistério ao redor de um tom sobrenatural. No caso de “O Homem Invisível”, é evidente que esse tom é uma ilusão (é só ler o título), mas “O Chalé” tem elementos o suficiente para sustentar a hipótese, como Grace e sua aversão a qualquer imagem religiosa e o sumiço de tudo, incluindo um remédio da mulher. A fita, assim como “Mãe!” (2017), não explana o que seria o medicamento tomado pela protagonista, deixando a plateia supor o que poderia ser, e, graças ao passado de Grace, provavelmente se trata de algum psicotrópico. Com a abstinência, Grace cada vez mais entra em um estado que cambaleia entre a realidade e a alucinação.

Mesmo a poucos dias ali, os relógios informam que semanas haviam se passado, e nada do pai voltar. Em uma desesperada tentativa de solução, Grace tenta encontrar outra casa a fim de pedir ajuda, mas inevitavelmente volta para a cabana. Lá, os filhos mostram um jornal com o obituário dos três: eles haviam morrido na noite dos filmes, e estariam no Purgatório, o limiar entre o Céu e o Inferno. Cabia a eles se arrependerem de seus pecados para salvarem suas almas, o que acorda todos os demônios enterrados em Grace.

Vamos sentar aqui e assimilar o que acontece. “O Chalé” tem uma reviravolta. É deliciosamente curioso como, mesmo sabendo que o filme sucede “Boa Noite Mamãe”, nós esquecemos dos traços seguidos pelos diretores, que são bem similares em “O Chalé”: as crianças são os maestros do caos. A película sadicamente introduz elementos, cenas e passagens que distraem o espectador do verdadeiro mal ali presente, e é maravilhoso ser “enganado”. Aidan e Mia arquitetaram um plano muito detalhado a partir de uma maquete que replica a cabana, e são eles que escondem toda a comida e objetos, além de psicológica e emocionalmente manipularem Grace, levando a mulher à literal loucura. Tudo é feito para vingar a morte da mãe, como se a existência de Grace fosse a culpada. Aidan fala exatamente isso para o pai no começo da fita, mas é desconcertante perceber que ele fala com convicção, condenando a protagonista.

O cinema de Franz e Fiala subverte uma lógica do terror, quando as crianças são sempre vítimas. Sim, já existiram filmes em que crianças são as vilãs, mas os dois são especialistas ao criar um estilo dramático que percorra por aí; tanto em “Boa Noite Mamãe” como em “O Chalé”, os adultos são peões impotentes da tática maquiavélica dos pequenos, e sempre fomentados por traumas – em “Boa Noite”, os filhos culpam a mãe por um acidente que matou membros da família. Só que no caso de “O Chalé”, as crianças foram longe demais e mexeram com a pessoa errada.

A carga religiosa que Grace por anos suprimia vem à superfície com toda a força. Ela está convencida de que todos da cabana devem passar por penitências físicas a fim da salvação, assim como Jesus deu seu corpo para a tortura. Quando o pai chega na cabana, depois de encontrar a maquete dos filhos com o plano, é morto por Grace em um torpor sacro, o primeiro a ser sacrificado pelo altíssimo.

Uma discussão fundamental que surge no subir dos créditos é: quem é o vilão da história? São as crianças, que propositalmente destroem a base de realidade de Grace? É Grace, que termina matando a todos? Ou é o pai, que troca a mãe por uma mulher mais jovem e não parece levar em conta os sentimentos dos filhos, apenas seu desejo? Porque, se pararmos para pensar, o estopim que leva ao sepultamento de todos os personagens é a decisão do pai em deixar a mulher.

Particularmente, as crianças são as maiores vilãs. O que o pai fez é inegavelmente egoísta e Grace sucumbe à loucura, enquanto todos os atos dos filhos são conscientemente calculados. Grace, inclusive, parece ser uma pessoa tentando encontrar uma redenção. No jornal que informa sobre o suicídio em massa do culto (bom dar uma pausa no momento), há uma passagem que revela que Grace é a única sobrevivente pois seu pai (o líder) queria que ela espalhasse a ideologia da seita, algo que claramente é repudiado por ela. Qualquer iconografia religiosa é um gatilho, e ela luta para se afastar do que representa o passado maculado pelo seu pai – e usado malignamente pelas crianças, sem noção do quão profundo e obscuro aquilo vai na mente da protagonista. Sinceramente, os dois mereceram o destino que tiveram.

“O Chalé” nada contra a maré do modelo atual de cinema de terror, acomodado em berrar sustos, e edifica sua atmosfera com muito cuidado, trabalhando com sugestões e temáticas geralmente tratadas com pobreza. Até a própria fotografia – do mesmo responsável por “O Lagosta” (2015) e “O Sacrifício do Cervo Sagrado” (2017) – é fundamental na imersão da história quando captura luzes naturais de maneira não convencional, no limiar entre claridade e escuridão. A religião católica já perdeu as contas de quantos filmes a tomam como ethos de maneira preguiçosa, sem agarrar o quão assustador pode ser quando roteirizada da maneira certa, e “O Chalé” é um desses exemplos de sucesso, ainda mais louvável quando não possui uma trama sobrenatural, bengala batida e saturada dentro do gênero.

Bom lembrar também sobre o como é um prazer ver diretores saindo dos seus países para o eixo EUA/Reino Unido sem abrir mão de suas personalidades e estilos a fim de degradar seus cinemas por uma bilheteria mais larga. “O Chalé” sucede “Boa Noite Mamãe” brilhantemente e ajuda a consolidar os nomes de Veronika Franz e Severin Fiala no alto escalão do horror contemporâneo.

Publicado em Deixe um comentário

Cinema | “Sombras da Vida”: um filme de fantasma como você nunca viu

Histórias de fantasmas habitam o imaginário do cinema há gerações. Já na aurora do cinema, em 1896, o primeiro filme de horror feito, “O Castelo Assombrado” do genial Georges Méliès, trazia fantasmas. Espalhados pelos mais diversos gêneros, as entidades assombram comédias, dramas, romances e, principalmente, terrores, sendo descritos, também, como espíritos e demônios.

“O Sexto Sentido” (1999), “Os Outros” (2001), “Atividade Paranormal” (2007), “Espelhos do Medo” (2008), “Sobrenatural” (2011) e “Amizade Desfeita” (2014) são alguns dos vários nomes que moldaram o terror moderno que bebe na fonte dos fantasmas. Todos esses prepararam nossas percepções para, ao pensarmos em fantasmas, logo formarmos a imagem de uma criatura assustadora e temível. “Sombras da Vida” vem então para adicionar um novo capítulo do cinema fantasmagórico, mas distorcendo bastante essas subjetivações ao redor da imagem da criatura.

“Sombras da Vida” (A Ghost Story) nos apresenta um casal, M (Rooney Mara) e C (Casey Affleck). Certo dia uma tragédia os separa quando C morre num acidente de carro, deixando M sozinha e inconsolável. O que poderia ser previsível, seguirmos a vida da mulher durante e pós o luto, é driblado quando seguimos então o fantasma de C.

O primeiro acerto do longa é a composição visual de C no after-death. David Lowery, diretor e roteirista da obra, vai ao básico do básico e cria um fantasma de lençol branco, o que há de mais elementar quando se trata da entidade – os fantasmas de “O Castelo Assombrado”, de mais de um século atrás, são exatamente assim. Claro, há todo um cuidado no figurino de Affleck, embaixo de um lençol gigantesco e com dois furos nos olhos, forrados por tecido preto. Até mesmo a forma dos círculos oculares são imprescindíveis para a composição imagética do personagem ao darem um ar melancólico a ele.

Outra escolha estética bastante correta é o ecrã do filme, um quadrado ao invés do usual retângulo. Lowery explicou que escolheu o ratio quadrado porque seria uma ligação à situação de C, preso numa caixa ao abandonar a liberdade pós morte para se manter em plano terreno. É evidente que, acima de tudo, filmar um quadrado dar um ar indie e, por quê não?, cool ao longa, porém não soa gratuito, principalmente com a ideia do diretor. Andrew Droz Palermo, fotógrafo do terror “Você é o Próximo” (2011), não se deixa limitar pelo ecrã e consegue retirar imagens belíssimas, desde os planos abertos, onde vemos a imensidão solitária em que C agora habita, até os closes e detalhes, captando a beleza e tristeza do ordinário, do comum, do dia a dia.

Ainda no hospital, após acordar para o pós-vida, C encontra uma porta iluminada, o caminho para a eternidade – ou o paraíso, você dá o nome que quiser -, mas ele não entra. Ao invés disso, vai até a casa em que dividia com a esposa para acompanhar como ela está lidando com a situação. Ela, claro, está péssima, todavia, ao invés do melodrama, o diretor escolhe em filmar um lado introspectivo da situação, sem pressa. Há uma cena de oito minutos ininterruptos onde vemos M chegando em casa e comendo uma torta. É impossível não pensar pelo menos uma vez “qual a necessidade de mostrar tudo isso?”, porém é importante vermos de forma crua e banal como é a vida de alguém após uma tragédia.

E, como é de se esperar, o tempo passa e M começa a fazer aquilo que é tão humano: seguir em frente. Sua vida passa num piscar de olhos na frente de C, sempre ali observando, até que ela aparece com um novo namorado, para a fúria do fantasma. A própria mulher demonstra se sentir um pouco culpada, mas nada é capaz de diminuir a raiva de C, que assombra – literalmente – a casa, piscando as luzes e derrubando diversos livros de uma estante, até que ela decide se mudar dali.

Antes de ir embora, M deixa um bilhetinho escondido dentro de uma fresta da parede da casa – algo que ela faz desde pequena ao se mudar, para guardar um pedaço seu no local -, o que vira o objetivo de vida (ou, no caso, de morte) do fantasma: descobrir o que ela escreveu. Enquanto não consegue pegar o papelzinho, ele aterroriza a vida de qualquer morador que se atreva a viver na casa, afinal, ali é o lar dele e da esposa, não importa a circunstância.

O filme brinca de maneira estrelar com os gêneros, apropriando-se de fragmentos de romance, terror e até comédia (é cômico ver o fantasma imóvel ao fundo das cenas enquanto as pessoas vivem sem ter ideia de que ele está ali) para compor algo único, original e fresco – e tudo com um orçamento baixíssimo, apenas 100 mil dólares, algo inimaginável em Hollywood. Temos aqui um cinema autoral, um sopro de ar fresco em meio a tantas sequências, reboots e franquias intermináveis.

Enquanto tenta descobrir o que tem no papel, curiosamente, C vai aprendendo um pouco com quem está na casa. Em determinado momento, um homem, no meio de uma festa, conta como todos nós estamos fadados ao esquecimento. Não importa o quanto tentemos, em vida, resguardar nossa memória: quando nos formos, um dia ninguém mais se lembará de nós. A cena não é um tapa apenas nas nossas caras, mas na de C também. Ele percebe, ali, que a esposa vai esquecer dele um dia. A casa que ele tanto ama também vai ser destruída. O mundo que ele conhece tão bem está, nesse segundo, mudando. Tudo foi feito para acabar. Então qual o propósito?

“Sombras da Vida” é um filme sobre o ato de não seguir em frente. Curiosamente, não é o lado de cá que decide não tocar com a vida, é o fantasma que se recusa a sair dali. Ele se apega desesperadamente à realidade com a esposa, à casa e sua velha vida, mesmo tudo isso tendo acabado. Largar tudo e cair no desconhecido gela a espinha de qualquer ser humano, na nossa louca natureza de conforto e segurança. Somos minúsculos, passageiros e finitos, e é impossível não perder o sono com essa máxima absoluta. Existencialista, niilista, melancólico e poético, “Sombras da Vida” é um longa que vai arrancar seu coração, porém, ao mesmo tempo, te encantar pela maneira belíssima que David Lowery mostra nossos objetivos nesse planetinha perdido no espaço.

P.S.: a música-tema do filme, “I Get Overwhelmed”, vai ficar eternamente na sua cabeça (e isso é uma bênção).

Publicado em Deixe um comentário

Série | Reality Z: Netflix traz muitos zumbis e pouca criatividade

Atenção: a crítica contém spoilers.

De tempos em tempos, alguma criatura ressurge com força total na cultura mainstream. Nenhuma delas está mais saturada do que os vampiros, sabemos, com zumbis estando um pouco atrás. Da série “The Walking Dead” está desde 2010 injetando os mortos-vivos na tevê, sendo o maior expoente da criatura na atualidade. Quando pegamos algo tão batido, só enxergo real necessidade quando a abordagem traz algo verdadeiramente original, como “Amantes Eternos” (2013) com vampiros e “Os Famintos” (2017) com zumbis.

Fiquei bastante curioso com o anúncio de “Reality Z”, nova série original da Netflix. Mais uma produção brasileira na plataforma – seguindo “3%” (2016-) e “O Mecanismo” (2018-), para citar algumas –, o que traz o diferencial de “Reality Z” é a temática. Se em um contexto geral os zumbis são figurinhas carimbadas há décadas, na arte brasileira ainda é elemento raro. Por algum motivo, nossa indústria não gera tantas fitas com o gênero terror, vendo-o desabrochar com maior efusão nos últimos tempos, o que garante o interesse.

“Reality Z” é um remake da série britânica “Dead Set” (2008). Criada por Charlie Brooker – a mente por trás do hit “Black Mirror” (2011-) –, “Dead Set” é uma sátira do “Big Brother”, colocando participantes reais para interpretarem eles mesmos durante o apocalipse zumbi – “Reality Z” pegou apenas a premissa, readaptando-a. Os cinco primeiros episódios são ligados diretamente aos cinco (e únicos) episódios de “Dead Set”, com os cinco restantes sendo originais.

Em terras tupiniquins, o seriado se passa no Rio de Janeiro. Lá é sede do “Olimpo”, o maior reality da tevê nacional: é basicamente um “Big Brother”, mas os participantes “interpretam” deuses da mitologia grega. Por quê? Eis uma boa questão. A base de “Reality Z” enquanto trama gira ao redor do “Olimpo” – a casa falsa dos deuses é, de certa forma, a protagonista de tudo –, todavia, tudo o que passava pela minha cabeça era: “Como inventaram um reality (apesar de fictício) tão ruim?”.

E nem falo “ruim” no sentido de “é tão ruim que com certeza venderia”, e sim “ruim” como criatividade. A fundamentação do reality (o porquê do formato) é fraquíssima, e, mesmo fictícia, difícil de imaginar alguém assistindo. Toda a história de deuses é totalmente descartável, apenas uma ideia (bem rasteira) para enfeitar e tentar fugir de ser mais um reality convencional. A cereja do bolo é a apresentadora, Divina (“interpretada”, sim, entre aspas, por Sabrina Sato).

A escolha de Sato é tanto mercadológica como metalinguística. É divertido ver que ela participou do real “Big Brother Brasil”, no entanto, a apresentadora está ali como chamariz de público – ela estampa várias artes promocionais da série, apesar de durar bem pouco no enredo. Eu não encontro problemas em escalações de globais quando há uma sólida justificativa baseada no talento, e, perdão a quem possa se ofender, talento para a atuação não se encontra presente em Sato diante da tela. Aliás, não se encontra na maior parte do corpo de atores.

A trama de “Reality Z” se desenrola em três vertentes – que se chocarão em algum momento. Levi (Emílio de Mello), um deputado corrupto e sua comitiva, suborna policiais para o tirarem do meio de um ataque; Ana (Carla Ribas), engenheira-chefe da construção do Olimpo, e seu filho Léo (Ravel Andrade) veem que as instalações do reality são a via de salvação; e Nina (Ana Hartmann), produtora do “Olimpo” que está dentro do prédio sem saber o inferno que acontece lá fora.

Os cinco primeiros episódios são focados em Nina e os participantes do “Olimpo”. Há poucos exemplos de redenção ali quando as performances são sofríveis. Para tornar o resultado ainda pior, o roteiro não tem sutilezas em transformar os personagens em completos imbecis que tomarão as decisões mais absurdas possíveis, condenando o destino de todos. Os “deuses” são criados em cima de estereótipos absolutamente clichês e unidimensionais – o malhado tapado e preconceituoso contra a travesti piedosa, o velho sexualmente reprimido contra a gostosa que vive na academia, etc.

REALITY Z Episode 102 of REALITY Z Cr. SUZANNA TIERIE/NETFLIX © 2020

Quem controla todo o jogo é Brandão (Guilherme Weber), o Boninho do “Olimpo”, o pior vilão do ano. Nem me refiro à atuação de Weber, e sim à construção do personagem. Ele não é insuportável porque foi refinadamente pensado para assim ser, é insuportável por ser tão mal feito. De ser injustificadamente cruel até arrotar e defecar na frente de mocinhas loiras que choram pedindo pela mãe (?), o texto força ao extremo a figura de malvado, levando-o à uma caricatura ambulante que consegue ser a pior coisa pensada ali dentro. Cada cena em que ele está na tela é uma tortura – principalmente porque em vários momentos Divina está com ele.

A partir do sexto episódio, o foco passa a ser sobre Ana e Levi, os dois polos da luta do bem contra o mal. Como era de se esperar, as composições são preguiçosas e não conseguem levar a história ao rumo que deveria ir. Um dos acertos da segunda metade do seriado é a diferenciação particular que “Reality Z” tem do seu derivado britânico: as discussões de classe e raça. No carro dos policiais que Levi suborna havia Teresa (Luellem de Castro), uma mulher negra presa que será uma das protagonistas na luta contra os zumbis. Ela é a porta-voz do bom-senso no meio das insanidades conduzidas por Levi e é constantemente vítima de racismo pelos outros. Na luta extrema pela sobrevivência, a mulher preta não se surpreende em se ver na posição de descartável.

Porém, apesar das discussões racializadas (que poderiam ser bem maiores e mais contundentes), há três passagens específicas que possuem um padrão meio desconcertante. Dentro do Olimpo há apenas uma participante negra, e ela é a primeira a morrer. Em uma abordagem policial fora de um supermercado, há cinco pessoas; três vindos do Olimpo, um policial branco e um negro, e o negro é o primeiro a morrer. Na chegada de Levi com a polícia no Olimpo, o motorista é um policial negro, e ele é o primeiro (e único) a morrer ali. Coincidência ou não, isso segue uma tradição em obras de terror em que personagens negros são os primeiros a morrerem, e só me perguntava o porquê.

Já levantei uma hipótese em algum dos inúmeros textos desta coluna, e várias recepções sobre “Reality Z” tendem a fomentá-la: quando falada na nossa língua materna, conseguimos perceber atuações ruins com mais afinco. Vi vários comentários muito positivos de expectadores internacionais sobre as performances em “Reality Z”, mas pensemos: como podemos captar as nuances de fala e atuação em uma língua que não dominamos? Um filme em húngaro dificilmente será assimilado da mesma forma que um brasileiro por nós, por isso, tendemos a ser mais críticos com algo próximo por sabermos como aquelas pessoas agem de verdade – e não estou apontando a “Síndrome de Vira-lata”, que rejeita qualquer coisa só por ser local, e sim do simples fato de que temos o português brasileiro como língua materna. Roteiros nacionais precisam parar de fazer com que seus atores falem da mesma maneira que escrevemos.

Pensando que não teria salvação, “Reality Z” me surpreendeu demais com as escolhas do episódio final, introduzindo trama com uma milícia que ameaça invadir o Olimpo. Toda a criatividade que mal aparecia nos nove episódios anteriores é derramada na finale, que tem plot-twists divertidos e não possui pena dos personagens, finalmente injetando uma sensação de perigo. Achei muito acertada a decisão de salvar nenhum dos personagens, o que provavelmente aconteceria com um mar de zumbis invadindo. A cena final ainda finca um gancho para uma continuação que, caso replique a engenhosidade da conclusão, será bem-vinda.

Realmente me doía ver o quanto estava desgostoso com “Reality Z”: sou um grande entusiasta de qualquer pessoa que desbrave o mercado audiovisual nesse país que ainda põe a cultura em um patamar de menor importância. Qualquer tentativa é bem-sucedida só por conseguir existir. Apesar de ser um seriado distante de uma mercadoria de qualidade – com exceção da ótima maquiagem dos zumbis –, “Reality Z” deve ser assistida para fortalecer as produções de gênero no nosso mercado, carente de exemplares do terror.

P.S.: caso exista em segunda temporada, produtores, um apelo: não façam mais cenas de ação com câmera de mão + slow motion. Obrigado.